quarta-feira, 21 de junho de 2017

Descoberto o Falsificador do 'Evangelho da Esposa de Jesus'

Uma nova informação sobre o Evangelho da Esposa de Jesus tem circulado desde o ano passado, mas, só foi chegar aos meus ouvidos essa semana. Mas, é como diz o ditado, antes tarde do que nunca. Ao que tudo indica, o falsificador do fragmento em questão foi identificado; ele se chama Walter Fritz e é um alemão que vive há anos nos EUA. O objetivo deste post é fornecer um resumo da questão. Quem tiver interesse em ler sobre as informações detalhadas, pode clicar nos links indicados ao longo do texto.

Foto de Walter Fritz segundo o blog Evangelical Textual Criticism
  
A informação tem sido divulgada em vários blogs desde o ano passado. O maior responsável por desvendar esse último detalhe da trama que envolveu a falsificação desse fragmento que ficou conhecido como Evangelho da Esposa de Jesus foi o jornalista Ariel Sabar, da revista The Atlantic. Em um artigo de junho de 2016, Sabar expôs os resultados de um excelente e complicado trabalho investigativo que o levou a identificar o falsificador. Cerca de 4 anos após a divulgação do fragmento no Congresso Internacional de Estudos Coptas, chega ao fim a saga do Evangelho da Esposa de Jesus. O artigo completo de Sabar pode ser lido clicando aqui

Outras pessoas expuseram resultados sobre as investigações que levaram à identificação do falsificador, entre eles Christian Askeland e Peter Gurry. Os resultados das investigações de ambos podem ser encontrados no blog Evangelical Textual Criticism.

Vale lembrar que mesmo antes da identificação do falsificador, não restava dúvidas quanto ao fato de o fragmento em questão se tratar de uma falsificação moderna. As evidências que apontavam para a falsificação eram muito numerosas e claras, e a prova definitiva foi apontada por Christian Askeland, como esse blog mostrou em abril de 2014 (para mais detalhes, clique aqui).  A própria Karen King, responsável pela divulgação do fragmento em 2012, já havia admitido ano passado que se tratava muito provavelmente de uma falsificação (clique aqui). 

Sobre o falsificador, Walter Fritz, sabe-se que ele estudou Egiptologia na Alemanha e chegou a publicar um importante artigo em 1991 sobre o período Armaniano - o icônico período da história do Egito faraônico - no periódico alemão Studien zur altagypschen Kultur. Segundo o blog Evangelical Textual Criticism, Fritz chegou a comprar o domínio www.gospelofjesuswife.com na internet algumas semanas antes de king divulgar a existência do fragmento em Roma, em setembro de 2012. Fritz também seria um grande admirador dos textos gnósticos. Levando em conta essas duas informações, podemos supor que Fritz teve duas motivações para levar a cabo a fabricação do fragmento: ganhar dinheiro e tentar convencer as pessoas de que existiu um relacionamento conjugal entre Jesus e Maria Madalena (talvez ele quisesse fazer uma pegadinha com os estudiosos também). 

Vale lembrar, no entanto, que essa ideia de que textos gnósticos falariam de um possível relacionamento conjugal entre Jesus e Maria Madalena é uma invenção do séc. XX, fruto de interpretações equivocadas e anacrônicas do próprios textos gnósticos. Nenhuma fonte Antiga, nem mesmo as gnósticas, falam de qualquer tipo de relacionamento conjugal entre Jesus e Maria Madalena (detalhes sobre isso podem ser encontrados no meu livro A Gnose em Questão, em específico, no capítulo 'Jesus e Maria Madalena: do Evangelho de Filipe ao Código da Vinci').

O blog Evangelical Textual Criticism diz ainda que, aparentemente, o próprio Fritz teria admitido por escrito ser o responsável pela falsificação.

Segundo Sabar e os demais que investigaram a saga da falsificação, outras pessoas estariam envolvidas no processo que fez com que o fragmento chegasse às mãos de King, que, vale lembrar, na minha humilde opinião, foi, desde o começo, enganada (ou seja, ela não sabia que se tratava de uma falsificação). Essas outras pessoas, porém, já faleceram (para mais detalhes, clique aqui).

Christian Askeland acredita que a falsificação tenha sido feita em algum momento após janeiro de 2009 (para mais detalhes, clique aqui).

Enfim chega ao fim a saga do Evangelho da Esposa de Jesus e sua falsificação (assim espero). 

terça-feira, 11 de abril de 2017

Algumas considerações sobre a data da Páscoa



O vídeo acima é do começo do filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson. Pode-se notar, logo no início do filme, um céu no qual uma lua cheia aparece resplandecente. Esse detalhe pode parecer, em princípio, um mero artifício fotográfico, uma maneira de produzir uma 'mise en scène' ao mesmo tempo dramática e bela.

Mas não, a lua cheia não é apenas um artifício cinematográfico usado por Mel Gibson; trata-se, na verdade, de um detalhe fundamental na trama. A lua cheia estava realmente lá na noite na qual começa a Paixão de Cristo. 

E esse post tem a ver com isso. 

Imagino que a essa altura do campeonato, você já tenha percebido que a data da Páscoa não é fixa, ela varia de ano para ano; e, consequentemente, todas as outras datas e feriados a ela atrelados, como o Carnaval, o início da Quaresma e Corpus Christi. Mas, por que isso acontece?

A resposta tem a ver com a lua cheia, tão pertinentemente lembrada por Mel Gibson em seu filme. 

A data da Páscoa é, antes de tudo, uma festa judaica, e, o antigo calendário judaico era um calendário lunar - baseado nos ciclos lunares - diferente dos calendários ocidentais, o gregoriano (usado por nós hoje) e o juliano (usado no Ocidente até fins do séc. XVI), que são solares, ou seja, baseados no tempo que a terra leva para dar uma volta em torno do sol. 

Portanto, a data da Páscoa é até hoje definida de acordo com o calendário judaico - que é lunar - e não de acordo com nosso calendário gregoriano. Por isso, a data varia no nosso calendário. Já vamos explicar de maneira mais detalhada porque. 

É normal escutarmos desde pequenos que a Páscoa para os judeus era a comemoração da libertação do povo hebreu do Egito, segundo o relato do livro do Êxodo. Há algo além disso. Além disso, a Páscoa era entendida também como uma festa da celebração da primavera (lembrando que a primavera, no hemisfério norte, começa por volta do dia 21 de março) e uma festa que celebrava as colheitas de cevada. 

A festa é observada por judeus e samaritanos. 

Espigas de cevada no ponto de colheita

A Páscoa judaica começa no dia 15 do mês Nissan, e é celebrada durante 7 dias. Um reflexo disso pode ser visto na liturgia católica, que também celebra a festa da Páscoa durante 7 dias além do próprio dia da Páscoa, naquilo que é comumente chamado de "Oitava da Páscoa". 

Para os judeus, a celebração já começava na noite anterior, na véspera, ou seja, na noite do dia 14 do mês Nissan. Mais uma vez, pode-se ver o reflexo disso na liturgia católica, que começa a celebrar a sua Páscoa na véspera, por meio principalmente da Vigília Pascal, que acontece no sábado à noite.

Como a Páscoa judaica era um festival da primavera, o dia 15 do mês Nissan começa na noite da primeira lua cheia do equinócio da primavera (no nosso calendário, o Gregoriano, o equinócio da primavera, ou seja, o início oficial da primavera, acontece entre os dias 19 e 21 de março). Para assegurar que a festa não fosse celebrada antes da primavera, o mês Nissan só começava depois que a colheita da cevada já tivesse sido feita. Ou seja, em linguagem simples, a Páscoa judaica começa no dia seguinte à primeira lua cheia depois do início da primavera. Logo, a Páscoa judaica pode cair em qualquer dia da semana. Esse ano, começa no dia 11 de abril, ou seja, hoje, dia da primeira Lua cheia depois do início da primavera. 

A Páscoa cristã

Jesus era um judeu, e, como todo judeu observante, celebrava a Páscoa. Os evangelhos e a tradição cristã nos confirmam que Jesus foi preso, crucificado, sepultado e que ressuscitou durante a Páscoa. Como a festa da Páscoa é definida de acordo com o calendário lunar - como mencionado acima - é possível saber com certa exatidão o dia em que Jesus morreu: o dia 7 de abril do ano 30 é a data mais provável da morte de Cristo; outra possibilidade seria o dia 3 de abril do ano 33. 

Foi a partir da morte e ressurreição de Cristo que a Páscoa passou a ter outro significado para Seus seguidores, que, eventualmente, viriam a ser chamados de "cristãos". Além de ser a celebração da libertação do hebreus no cativeiro do Egito, a Páscoa passou a ser a celebração da Ressurreição de Cristo. Como o cristianismo teve, desde o início, um caráter universal, a celebração da primavera e da colheita de cevada perderam o sentido com o tempo, já que o cristianismo chegou a culturas que não tinham nem cevada e/ou não celebravam a primavera. 

Como para os cristãos a Páscoa passou a ser a celebração da Ressurreição de Cristo, e Cristo, segundo os relatos evangélicos e a Tradição, ressuscitou num domingo, os cristãos passaram, a partir de um determinado momento, a celebrar a Páscoa sempre no domingo, dia da Ressurreição.

Representação artística da Ressurreição, de maneira mais precisa, do momento conhecido como descensus ad inferos, ou, da descida de Jesus ao mundo dos mortos, para buscar os justos do Antigo Testamento


Diferentemente da Páscoa judaica, portanto - que pode começar em qualquer dia da semana - a Páscoa cristã sempre começa a ser celebrada num domingo. Portanto, de modo geral, a Páscoa para os cristãos ficou definida como sendo o primeiro domingo, depois da primeira lua cheia depois do início (equinócio) da primavera. Mas, como vimos, o início da primavera pode variar. E isso provavelmente causou certa discordância entre os cristãos já nos primeiros séculos da nossa era. A Carta de São Policarpo, por exemplo, testemunha essa pequena querela já no primeiro quarto do séc. II. E até hoje, nem sempre a Páscoa dos cristãos do Ocidente é celebrada no mesmo dia da Páscoa dos cristãos do Oriente. Hoje, isso se deve em grande medida ao fato de muitos cristãos do oriente ainda usarem o antigo calendário juliano como calendário litúrgico. 

O Concílio de Nicéia em 325 tentou acabar com as polêmicas da definição da data estabelecendo dois critérios: universalidade (ou seja, todos os cristãos deveriam celebrar a Páscoa na mesma data) e independência em relação à Pascoa judaica. A primeira medida não vingou, a segunda, sim. 

Na Antiguidade, outra dificuldade se encontrava no fato de as observações astronômicas serem muitas vezes difíceis de serem realizadas. Ou seja, nem sempre era possível determinar com exatidão quando exatamente começava a primavera e quando exatamente a lua estava cheia. 

Assim sendo, por razões práticas, as Igrejas de Roma e Alexandria, provavelmente am algum momento do séc. III, adotaram a chamada "lua cheia eclesiástica": ficou definido que, para fins litúrgicos, a data do início da primavera seria sempre o dia 21 de março. Ou seja, até hoje a Páscoa cristã é celebrada no primeiro domingo, depois da primeira lua cheia depois do dia 21 de março. Esse ano, como dito acima, a primeira lua cheia depois do dia 21 é hoje, logo, a Páscoa cristã é no próximo domingo. 

A título de curiosidade, o mais cedo que a Páscoa pode cair é no dia 22 de março; para tal, precisamos de uma lua cheia no dia 21 e esse dia dia 21 tem de ser um sábado. Isso aconteceu pela última vez em 1818 e vai acontecer novamente em 2285. 
A data mais tardia em que a Páscoa pode cair é no dia 25 de abril. Isso aconteceu em 1943 e vai acontecer novamente em 2038.